Os golpes online com Pix consolidaram-se como uma preocupação crescente no cenário digital brasileiro. Atualmente, o sistema de pagamentos instantâneos, amplamente adotado pela sua praticidade, é o único método exigido em cerca de um terço dos golpes online mais virais no país.
Um recente levantamento do Observatório Lupa, um núcleo de pesquisa da Agência Lupa, trouxe à luz dados alarmantes. O relatório, intitulado “A Jornada dos Golpes” (segunda edição), analisou 115 conteúdos fraudulentos que circularam de forma viral entre maio de 2024 e abril de 2026. Além disso, a pesquisa destacou que uma grande parte dessas fraudes é previsível, seguindo padrões repetitivos explorados pelos criminosos.
O Brasil testemunhou uma rápida e massiva adesão ao Pix desde seu lançamento. Sua conveniência, instantaneidade e gratuidade para pessoas físicas o transformaram no principal meio de pagamento do país. No entanto, essa mesma facilidade, que impulsionou a inclusão financeira e a agilidade nas transações, abriu uma porta para novas modalidades de golpes e fraudes.
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Portanto, a proliferação dos golpes online com Pix não é apenas um problema tecnológico. Ela reflete uma dinâmica social complexa, onde a vulnerabilidade econômica e a busca por vantagens financeiras se encontram com a engenhosidade criminosa. Em outras palavras, os golpistas adaptam-se rapidamente às inovações, explorando as características das novas tecnologias para ludibriar as vítimas.
Os golpes online virais são caracterizados por sua rápida disseminação, especialmente em plataformas de redes sociais. Eles dependem de gatilhos psicológicos e da capacidade de criar uma sensação de urgência ou uma promessa de benefício irresistível. Por exemplo, o relatório do Observatório Lupa indica que 7 em cada 10 fraudes nas redes sociais exploram a promessa de vantagens financeiras.
Dessa forma, os criminosos operam por meio de estratégias altamente repetitivas, tornando os golpes previsíveis. Eles reciclam estruturas que já se mostraram eficazes, adaptando as narrativas a eventos sazonais ou temas em evidência no noticiário. Promoções falsas, indenizações inexistentes e ofertas de emprego fraudulentas são apenas algumas das táticas comuns.
A pesquisa do Observatório Lupa é enfática: cerca de um terço dos golpes analisados exigia pagamentos exclusivamente via Pix. Ademais, 71% das fraudes prometiam algum tipo de vantagem financeira, enquanto 74% exploravam a credibilidade de empresas ou personalidades conhecidas. Essa combinação de promessa de dinheiro fácil, uso de marcas confiáveis e a exigência de pagamentos instantâneos via Pix cria um cenário fértil para a atuação dos golpistas.
Beatriz Farrugia, pesquisadora responsável pelo estudo, destaca a natureza adaptativa dos criminosos. “Os criminosos não precisam criar golpes completamente novos para continuar fazendo vítimas. Eles reutilizam estruturas que já funcionaram, adaptam a narrativa ao contexto do momento e se aproveitam da confiança que as pessoas depositam em marcas conhecidas, instituições e figuras públicas”, explica Farrugia. Por isso, a previsibilidade das fraudes também abre espaço para ações preventivas mais eficazes.
Uma das táticas mais insidiosas empregadas pelos golpistas é a distorção de fatos reais. O relatório aponta que 66% dos golpes analisados partiram de informações verdadeiras para construir narrativas enganosas. Este índice representa um aumento significativo em relação ao período anterior, que registrava 55%. Essa estratégia inclui a manipulação de reportagens jornalísticas, comunicados oficiais, campanhas legítimas, decisões judiciais e até mesmo páginas institucionais.
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Em outras palavras, os criminosos criam conteúdos que, à primeira vista, parecem autênticos. Farrugia ressalta que “o uso de elementos reais torna os golpes mais difíceis de identificar. Muitas vezes, a fraude não nasce de uma informação totalmente inventada, mas da adulteração de fatos verdadeiros, marcas reconhecidas ou notícias que já circulam na imprensa. Isso aumenta significativamente a sensação de credibilidade”.
O estudo também identificou que mais de 15 empresas, incluindo varejistas, bancos, marketplaces e plataformas digitais, tiveram suas marcas utilizadas indevidamente. Mercado Livre e Nubank foram as mais exploradas, com quatro ocorrências cada. Shopee, Serasa e Rede Globo também apareceram entre os nomes mais utilizados. Além disso, personalidades públicas, jornalistas, médicos e influenciadores foram frequentemente usados para dar maior poder de convencimento às mensagens fraudulentas.
A jornada da fraude geralmente começa em redes sociais abertas, como Facebook, Instagram e TikTok. Em seguida, ela migra para ambientes mais privados, como formulários online (para coleta de dados pessoais) e aplicativos de mensagens, com o WhatsApp presente em quase 65% dos golpes analisados. Essa transição para canais mais diretos e pessoais aumenta a eficácia dos golpes, dificultando a detecção e o bloqueio.
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